“- Bonitinha, como estás? – Stan ao telefone, com voz animada.
- Stan! – ela sorri e larga o livro que estava lendo – Bem, e você? Como foi o congresso em, no... Onde era mesmo? – tenta recordar-se, em vão.
- Espanha. Estou aqui ainda, no aeroporto. Foi bom. Muitas menininhas vieram falar comigo ao final da palestra. Dou atenção, pergunto o nome delas e elas dormem felizes – dá uma risada sarcástica.
- Sei, você não tem paciência com menininhas, de qualquer modo – Luísa fala, com certo descaso – Aliás, você me liga uma e meia da manhã para dizer isto?
- E você fica puta ao ouvir. Mas vai negar. Vai Luísa, nega – provoca-a rindo – Liguei porque senti saudades.
- Eu já tive vinte anos, sei como é – ri – Não fico mais. Há tempos não me permito sentir ciúmes de você. É estúpido.
- Não é não. É humano”.
(Cadernos de Luísa, Vanessa Souza Moraes)
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Não há raivoso burro
Não há raivoso burro - Carpinejar
"(...) - O que sinto? Não sei o que sinto, estou pensando agora no que sinto e não estou gostando nem um pouco.
(...) - Ai me achega uma preguiça do que não vivi.
(...) Para destruir, montamos e desmontamos o dicionário com afinco, puxamos as piores fragilidades para sangrar. Criamos até neologismos. No momento da briga, ninguém segura o verbo. Não há raivoso burro. Não há raivoso com língua presa. Não há raivoso gago. Um Padre Antonio Vieira acorda na acusação apontando os dedos ao destino.
No momento da paz, o verbo é travado. Parece que não precisamos fazer mais nada, a não ser recorrer às exclamações. Observamos nossa namorada e nos tranquilizamos com "bonita", "linda", "maravilhosa", "incrível", "fabulosa". Ela vai se tornando igual às outras. Não criamos gentilezas novas, não nos esforçamos para a homenagem. Não duvidamos do que sopramos para fora.
Se ela derruba os livros no chão, apontaremos que ela é atrapalhada. Por que não dizer que ela transborda?".
(Crônica: Preguiçoso no elogio - de: Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 101-102)
"(...) - O que sinto? Não sei o que sinto, estou pensando agora no que sinto e não estou gostando nem um pouco.
(...) - Ai me achega uma preguiça do que não vivi.
(...) Para destruir, montamos e desmontamos o dicionário com afinco, puxamos as piores fragilidades para sangrar. Criamos até neologismos. No momento da briga, ninguém segura o verbo. Não há raivoso burro. Não há raivoso com língua presa. Não há raivoso gago. Um Padre Antonio Vieira acorda na acusação apontando os dedos ao destino.
No momento da paz, o verbo é travado. Parece que não precisamos fazer mais nada, a não ser recorrer às exclamações. Observamos nossa namorada e nos tranquilizamos com "bonita", "linda", "maravilhosa", "incrível", "fabulosa". Ela vai se tornando igual às outras. Não criamos gentilezas novas, não nos esforçamos para a homenagem. Não duvidamos do que sopramos para fora.
Se ela derruba os livros no chão, apontaremos que ela é atrapalhada. Por que não dizer que ela transborda?".
(Crônica: Preguiçoso no elogio - de: Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 101-102)
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Primavera (in)contida.
“Um dia banal, uma noite comum, uma segunda-feira qualquer. Luísa chega ao prédio onde mora pensando em coisas cotidianas: a tese, que vestido usar na festa de amanhã à noite, o que jantar, se vai correr ou não no calçadão... Muitas ideias sem grande importância, ao mesmo tempo. Pega a chave do apartamento na bolsa e chama o elevador. Lembra-se de olhar a caixa de correspondência. No meio de propagandas, contas e catálogos, um envelope pequeno. Remetente: Lúcio. O coração quase pára. Respira fundo, sempre pensou que pudesse ter um ataque fulminante de amor. Não agora. O elevador demora uma eternidade. A carta pulsa na mão. A taquicardia aumenta. A impaciência também. Só vou abrir dentro de casa, pensou, como se tivesse algum receio do conteúdo. Ela odiava outorgar esse poder a ele, mas tinha a consciência de que seus humores podiam ser grandemente alterados com o que estivesse dentro do envelope. E ainda era segunda para partir-se em muitos pedaços. Cansava-se tanto apenas em ser. Esses extremos: a euforia suprema ou o desânimo abafado, isso a exauria.
Abre a porta da cozinha colorida, deixa a bolsa e as correspondências sem importância sobre a bancada e pega um copo de água gelada. Bebe de um só gole, alterando o hábito: Luísa bebe devagar, come devagar. Todo o resto se passa rápido.
Senta ao redor da pequena mesa, olha o envelope. Não quer rasgá-lo e pega uma tesoura rosa na gaveta. Corta com cuidado no cantinho e retira a carta. A caligrafia sinuosa de Lúcio. A caligrafia bela de Lúcio. Leu de um só fôlego.
***
Luísa,
Tenho um estrondo de primaveras incontidas.
Sou minha abnegação e um pecado convertido em prazer.
Sou suas pequenas e múltiplas feridas, que não saram, não cicatrizam, que se infeccionam até se converterem num manto de sujeira habitado por vidas ignoradas e rastejantes na esperança de luz.
Ainda sim, te busco, te escrevo.
Pois sei que tem muito amor escondido entre os mesmos dedos que seguram essa adaga fria. Que te trago para dança e danço contigo em passos de conta gotas.
E você não quer e mais tarde quer sempre mais. Mesmo que seja patético, mesmo que seja sublime.
Te destroço a carne, e em cada coisa que te digo, coloco um pássaro cego se chocando contra a janela. Sou obstinado em preencher as palavras com cheiros e viscosidades de lesmas. Os dias, às vezes, são amanhecidos em mim.
Ao fim sobra o espanto de que nossos corações já tão doídos insistam nessa perigosa aventura de se entregar mais uma vez e outra e outra e quantas forem necessárias para que encontrem um porto definitivo ou qualquer coisa que se assemelha àquelas histórias de pessoas felizes, meio Paulette Goddard e Carlitos que caminham sem fantasmas, sem labirintos.
Só te peço que da próxima vez que a gente se ver, por favor, não se esqueça de trazer seu chapéu coco e tua queda feita de plumas.
Te mato no abismo de mim e te amo no horizonte em que me perco,
Lúcio
***
Suspirou e respirou fundo. Um sorriso brotou, e ali ficou. Encostou a cabeça na parede. Depois dos pratos quebrados, o espanto de insistir como Paulette Goddard e Carlitos, nessa estrada sem fim. Num horizonte onde amores são sempre possíveis, tem muito amor. Sim”.
(Cadernos de Luísa, Vanessa Souza Moraes)
Abre a porta da cozinha colorida, deixa a bolsa e as correspondências sem importância sobre a bancada e pega um copo de água gelada. Bebe de um só gole, alterando o hábito: Luísa bebe devagar, come devagar. Todo o resto se passa rápido.
Senta ao redor da pequena mesa, olha o envelope. Não quer rasgá-lo e pega uma tesoura rosa na gaveta. Corta com cuidado no cantinho e retira a carta. A caligrafia sinuosa de Lúcio. A caligrafia bela de Lúcio. Leu de um só fôlego.
***
Luísa,
Tenho um estrondo de primaveras incontidas.
Sou minha abnegação e um pecado convertido em prazer.
Sou suas pequenas e múltiplas feridas, que não saram, não cicatrizam, que se infeccionam até se converterem num manto de sujeira habitado por vidas ignoradas e rastejantes na esperança de luz.
Ainda sim, te busco, te escrevo.
Pois sei que tem muito amor escondido entre os mesmos dedos que seguram essa adaga fria. Que te trago para dança e danço contigo em passos de conta gotas.
E você não quer e mais tarde quer sempre mais. Mesmo que seja patético, mesmo que seja sublime.
Te destroço a carne, e em cada coisa que te digo, coloco um pássaro cego se chocando contra a janela. Sou obstinado em preencher as palavras com cheiros e viscosidades de lesmas. Os dias, às vezes, são amanhecidos em mim.
Ao fim sobra o espanto de que nossos corações já tão doídos insistam nessa perigosa aventura de se entregar mais uma vez e outra e outra e quantas forem necessárias para que encontrem um porto definitivo ou qualquer coisa que se assemelha àquelas histórias de pessoas felizes, meio Paulette Goddard e Carlitos que caminham sem fantasmas, sem labirintos.
Só te peço que da próxima vez que a gente se ver, por favor, não se esqueça de trazer seu chapéu coco e tua queda feita de plumas.
Te mato no abismo de mim e te amo no horizonte em que me perco,
Lúcio
***
Suspirou e respirou fundo. Um sorriso brotou, e ali ficou. Encostou a cabeça na parede. Depois dos pratos quebrados, o espanto de insistir como Paulette Goddard e Carlitos, nessa estrada sem fim. Num horizonte onde amores são sempre possíveis, tem muito amor. Sim”.
(Cadernos de Luísa, Vanessa Souza Moraes)
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Felicidade, sempre clandestina
“E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.”
(Felicidade Clandestina, Clarice Lispector, p. 17)
domingo, 12 de setembro de 2010
Seu coração é frio como gelo e me atrai...

"Te respondo, desta vez sem rodeios, sem repetições, da forma simples e sem grandes escândalos como acontecem as coisas mais espantosas, as coisas importantes: escrevo para que você me leia. Simples assim. Para que você me leia e volte, para que você me leia e pense que há algo surpreendentemente belo em mim, algo que você não viu, algo que passou por nós despercebido. Então, para ser mais clara, é possível?: para que você me leia e ame".
(Flores Azuis, Carola Saavedra, p. 42, Ed. Companhia das Letras)
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Essas coisas bobas que me fazem suspirar, eu penso...
"- E então Lúcio me dizia para ficar feliz, Camille, que eu engolisse o choro, já que os encontros precisam ser celebrados. Sim, a chegada dele trouxe-me uma felicidade absurda. E eu que pensei que não tivesse talento para a felicidade.
- Não tens é talento para a sarjeta, sua boba - sorri Camille, doce.
- Talvez eu não seja muito boa em celebrar. De choro, eu entendo. E de cheiros. Depois que ele se foi, naquela noite, eu passei dias farejando meus vestidos curtos de verão, tentando resgatar vestígios do perfume dele. Hoje, enquanto passava rímel nos cílios, antes de vir te encontrar aqui no café, eu olhava para o meu estojo de maquiagem e pensava: como essa necessaire foi feliz, enquanto esteve ao lado do vidro de perfume dele. Essas coisas bobas que me fazem suspirar, eu penso...
Camille apenas sorri.
- Vezenquando, eu me sinto tão patética, Camille. Eu compraria o perfume dele, se soubesse o nome. Evidentemente, cada perfume tem um cheiro diferente na pele de cada pessoa. E não seria a mesma coisa...
- O amor é patético, Luísa".
(Cadernos de Luísa, Vanessa Souza Moraes)
- Não tens é talento para a sarjeta, sua boba - sorri Camille, doce.
- Talvez eu não seja muito boa em celebrar. De choro, eu entendo. E de cheiros. Depois que ele se foi, naquela noite, eu passei dias farejando meus vestidos curtos de verão, tentando resgatar vestígios do perfume dele. Hoje, enquanto passava rímel nos cílios, antes de vir te encontrar aqui no café, eu olhava para o meu estojo de maquiagem e pensava: como essa necessaire foi feliz, enquanto esteve ao lado do vidro de perfume dele. Essas coisas bobas que me fazem suspirar, eu penso...
Camille apenas sorri.
- Vezenquando, eu me sinto tão patética, Camille. Eu compraria o perfume dele, se soubesse o nome. Evidentemente, cada perfume tem um cheiro diferente na pele de cada pessoa. E não seria a mesma coisa...
- O amor é patético, Luísa".
(Cadernos de Luísa, Vanessa Souza Moraes)
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
talvez por isso
"Num deserto de almas também desertas, uma alma reconhece de imediato a outra".
(Caio F.)
(Caio F.)
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